quinta-feira, 19 de julho de 2012

O Pentagrama de Pérola: Comunidade, transformação e energia.




Assim como o Pentáculo de Ferro (PF), o Pentáculo de Pérola (PP) é umas das ferramentas essenciais usadas na tradição Feri. Como coloquei quando descrevi o Pentagrama de Ferro, ambos eram ensinados como um só por Victor Anderson. Este é um fato muito importante, já que caracteriza um sendo essencial ao outro. Enquanto o PF representa as qualidades pertinentes de cada um, ou seja, pertencentes ao universo individual, o PP se expande para o conceito de comunidade, despertando conceitos que acontecem inter-relacionalmente, sendo um complemento para o PF, como se fossem polares. Quando unidos no Decagrama, representam a união divina necessária para despertar completamente a consciencia de nossa natureza Divina.
                Enquanto o PF pode ser percebido como cheio de energia, rápido, denso e quente, o PP é geralmente descrito como sendo suave, calmo e freco, como uma brisa em dia de calor, um equilibrio necessário para a energia que o PF despertou que pode nos sobrecarregar. Mas isso são tudo conceitos gerais, constuma-se dizer que existem tantas maneiras de se viver os Pentáculo quanto existem pessoas para vivê-los.
                Se originalmente ambos os Pentáculos foram ensinados juntos, o que os separou e qual o motivo do PF ser trabalhado antes do que o PP? Bem, eu me perguntei e perguntei para minha orientadora, buscando entender as razões disto ter acontecido. Como disse, a Tradição Feri é uma Tradição viva e é como uma árvore, seu tronco é único, mas muito sãos os seus galhos. Em algum momento alguem decidiu refinar os trabalhos com os Pentáculos e os separou, mas ensinar o PF antes do PP faz sentido quando analisamos que o primeiro lida com as relações consigo mesmo e o segundo lida suas relações com os outros. É necessário ter essa base antes de adentrar nos conceitos relacionais (se o relacionamento consigo mesmo já é complicado, imagina com outro ser!). O Pentagrama de Pérola vem para ampliar nossos conceitos e trabalhos em comunidade. No final das contas, algo que me é sempre repetido é que o PF e o PP são os mesmos Pentáculos, mas vistos de ângulos diferentes. É como se o PP fosse o PF vibrando em outra frequencia. É um paradoxo legal para meditação.
                Quando o foco é o trabalho interno com nosso self, o PF é a melhor ferramenta, suas cinco pontas representando qualidades e urgências que com frequência precisam ser curadas, repensadas e exercitadas para que possamos despertar nosso poder interior. O PF vem para realinhar o nosso ser para que possamos agir na comunidade de maneira íntegra e eficaz, reconhecendo a nossa verdade de maneira profunda.
                Quando bem alinhados com o Pentagrama de Ferro surge o Pentagrama de Pérola, a lógica é a de que quando estamos bem alinhados, centrados e curados, estamos prontos para agir no mundo, começando pela nossa comunidade. A energia densa, cheia de poder e calor se torna mais refinada e as pontas se transformam em conceitos que regem os relacionamentos, com outros seres humanos, com outros seres vivos e com tudo o que existe ao redor. A natureza do PP é a de nos dar uma visão mais panorâmica de comos tudo flui no universo para que possamos nos encaixar e nos encontrar nesta dinâmica, agindo a favor da corrente e não contra, para a construçao de um espaço melhor, de um mundo melhor.
                O PP trabalha a nivel de Uhane, ou seja, nosso self humano, discursivo, noss self relacional, racional e inteligente. Seus conceitos são para serem pensados, refletidos e meditados de maneira mais intelectual, pois esta é a sua energia e ela flui diferente da do PF assim como Uhane é diferente de Unihipili. A energia gerada pelo PP é Mana-Mana, o impulso criativo, a abrangência intelectual o fluxo de inspiração que faltava para que possamos abraçar a causa do mundo e vivê-la. Assim como Uhane reflete também nossos limites energético, o PP vem para nos fazer refletir sobre o que cabe a nós fazer e de que maneira podemos agir em sintonia com a Divindade e o Cosmos. Mas Uhane é também comunicação, é a parte de nós que primeiro entra em contato, com outra pessoa ou outro lugar e é assim que o PP se mostra, nos orientando sobre como podemos nos relacionar melhor com tudo ao redor. Suas pontas são mais complexas do que a do PF pois refletem padrões sociais mas que também foram corrompidos e precisam ser curados.

AMOR:
Amor é a energia que mantém tudo girando, em atração. Este conceito me lembra muito a lenda de Eros e Apollo, quando o Deus da Luz Solar desafia o Deus do Amor, alegando ser o melhor arqueiro que já existiu, Eros em fúria diz que Ele já existia antes de qualquer coisa, ele é a força que mantém tudo unido e que promove esta união. É, o Amor é mais ou menos isso mesmo, nos coloca em movimento, de aproximação, de contato com cada coisa e claro, o resultado não poderia ser mais óbvio: Sexo. Mas amor e sexo são conceitos que precisam ser muito refletidos e trabalhados. Quando considerados como força vital, sexualidade no sentido de encontro e prazer que a vida propõe, o êxtase do encontro, acaba-se ampliando os conceitos, neste sentido, até respirar se torna um at sexual, já que nos conecta com tudo o que existe ao redor. Amor é o que mantém esta corrente fluindo, um estado profundo de atração que nos leva sempre ao orgasmo do encontro.

CONHECIMENTO:
Como conhecimento entra numa ferramenta que visa trabalhar conceitos de comunidade? Bem, quando analisamos o conceito com certo olhar crítico o primeiro ponto a ser considerado é o re-conhecimento, de si e do outro. Primeiro é reconhecer-se diferente, único e neste processo reconhecer-se divino. A ponta do conhecimento nos leva a trabalhar a partir de conceitos, abandonando assim pré-conceitos, ou seja, você age com conhecimento de causa, você estuda, reflete, pensa, analisa e interage, não como um impulso (isso é coisa do PF) mas como algo que leve em consideração o outro. Conhecimento está ligado a ponta do Self no PF e isso já nos leva a outra questão relacionada a Apollo (eu sei, eu sei, segunda vez que falo dele, mas é que ele é meu ponto de referência, ué!) “Conhece a ti mesmo!” e isso já mata boa parte da charada desta ponta. É interessante pensar que “conhecimento” se destaque como uma ponta de uma ferramenta que trabalha a interação social, nos direciona para agir em prol da educação, do saber, de estar sempre aberto a aprender algo novo, não deixar que seu conhecimento fique estagnado, é ação.

SABEDORIA:
Ué, mas não se tinha falado de conhecimento agora a pouco? Sabedoria, outro conceito intelectual? Sim, é e não é, sempre me disseram que conhecer como se faz não significa saber fazer. Sabedoria é mais ou menos isso, é um saber visceral, é partindo do re-conhecimento de nossa divindade inata (e consequentemente da divindade inata do outro) podemos agir com sabedoria, de acordo com a natureza dos Deuses da natureza. Um sábio é aquele que já experienciou muita coisa nesta vida, mesmo sem ter frequentando o colégio ou faculdade, é aquele pessoa que sabe falar a coisa certa, na hora certa, é o que nos remete aos nossos pais, avós, anciãos de nossa comunidade, é também estar atento a sabedoria popular, ao senso comum, se abrir ao que isso quer dizer, sendo cientifico ou não, existe algo de verdade no que o povo diz. Quando eu trabalho com sabedoria eu gosto muito de pensar no conhecimento que existe em nosso DNA, nas espirais que refletem os padrões cósmicos, na maneira como as nossas células se dividem, de como nosso estômago digere o alimento, como o útero sabe o tempo certo de menstruar e como o corpo por si só sabe, em saúde, de auto-regular pois é perfeito e está alinhado com os padrões naturais de vida. Algo que foge de nossa consciencia, mas que pode ser acessado por ela, isto é sabedoria, reconhecer os padrões que refletem o Cosmos.

LEI:
Se sabedoria é reconhecer os padrões, Lei é agir de acordo com eles. Circulando o pentagrama de Pérola conseguimos ter um relance de como as pontas interagem. Sabedoria leva diretamente a Lei. Não as “leis dos homens”, mas uma lei cósmica que rege o universo. Este é um conceito que muitas vezes empacamos ao trabalharmos, pois nos remete ao nossos sistema de leis, falho, corrupto, controlador, nos dá medo de nos submeter a estas leis e perdermos o livre-arbítrio de agir de acordo com a nossa vontade. Este é o ponto chave: A verdadeira Lei confere poder a pessoa, poder pessoal, o poder agir de acordo com a sua vontade, se levarmos em consideração todo o trabalho deste Pentáculo e do PF, podemos entender que a nossa vontade está alinhada com a vontade divina. Lei neste caso é uma questão de ordem natural, nossas células se agrupam de um jeito, as moléculas químicas se agrupam cada uma de uma maneira, de acordo com a sua natureza. O ferro, a madeira, o plástico, a cerâmica, a pele, o sangue, os cristais, cada um com sua peculiaridade, seguindo sua essencia, representando a sua lei, se agrupam e exercem suas funções divinas na terra, sem controlar o outro, existe um direcionamento, um foco. Relacionando um pouco as pontas aqui, Lei se ligar diretamente ao Amor, e o que é a Amor senão a Grande lei? Como disse um pensador “Amor é a Lei, amor sob vontade”, mas isso é pano pra outra manga.

PODER/LIBERDADE:
Existem muitas controvérsias acerca desta ponta do Pentáculo. Eu aprendi a trabalhar com o PP tendo como uma de suas pontas a “Liberdade” mas por questões culturais eu não consegui fazer a energia fluir, então, seguindo os conselhos da minha orientadora eu busquei a raiz do Pentáculo de Pérola que coloca “Liberdade” como “Poder”, mas no PF a mesma ponta se chama “Poder”, então uma nâo evoluiu? poder é poder? Bem, não. Poder no PF é poder interior, é um reconhecimento da força de si mesmo (está ligado diretamente ao Self), já no PP é poder-com, o poder mediado com o outro, o poder compartilhado, poder fazer algo junto com o outro, é uma nova abordagem de Poder, bem diferente do que a nossa sociedade vem pregando, que temos que obter o poder total (assumindo que poder=controle) somente para nós, é o âmago das instituições hierárquicas, onde o “chefe” é que tem todo o poder. Aqui nesta ponta o Poder faz referencia a “estar em harmonia com (o outro, o universo, a Lei, o Amor...). Já Liberdade diz respeito a agir livremente, de acordo com a Lei e o Amor, é reconhecer suas potencialidades sem fronteiras e exercer seu potencial total. Eu falo que tive uma “questão cultural” pois a visão americana de Liberdade é muito diferente da visão brasileira o que dificultou muito a assimilação deste conceito, já que lá viver a liberdade é um ideal nacional e por aqui temos uma perspectiva diferente que precisa sim ser trabalhada num contexto social-político, por isso que o “Poder-com” trabalhado no PP quando bem assimilado se transforma em “Liberdade” pela força que uma comunidade tem de quando unida num mesmo ideal, agir em prol da Liberdade comum.
                Num sentido prático não é dificil compreender como estes dois conceitos se entrelaçam e refletem o mesmo entendimento. Ambos estão ocupados com a libertação das restrições e em incentivar uma autoridade pessoal saudavel, um estado que se faz necessário quando estamos indo rumo a realização e manifestação da Divindade Interior.

                Os trabalhos com os Pentáculos são extremamente transformadores, enquanto o trabalho com o PF resulta em uma personalidade forte, entende-se que personalidades fortes não necessariamente trabalham bem com outras personalidades. Para ser sincero, o tipo de força adquirida ao se trabalhar com o Pentagrama de Ferro é somente o início, num caminho que nos leve a reinvindicar a nossa divindade precisamos estar preparados para compartilhar o mundo com os outros para que sejamos dignos desta força que clamamos. Nenhum de nós existe num vácuo, é o antigo clichè que se fala “É fácil prum monge budista alcançar a iluminação no alto de uma montanha, sozinho, mas é no mundo “real” é que botamos a prova tudo isso”, é na fechada no trânsito, na pressão do trabalho, no atraso do trem, na fila do banco. O Desafio moderno, como sempre disse, é alcançar a iluminação no mundo moderno, algo que faz parte dos ensinamentos do PP.
                O ideal de se trabalhar em comunidade não indica necessáriamente que devemos sofrer com interações não saudáveis caso elas surjam. Parte de se construir uma comunidade saudavel é aprender a estabelecer limites claros, uma caracteristica do Uhane, quando e como dizer não, por exemplo. Certamente uma das lições do PF é a de nunca entregar nosso poder a ninguem ou a coisa alguma. Quando as transformações do PF são combinadas com os trabalhos do PP a alquimia acontece, uma mudança que permite-nos agir de um lugar divino e pessoal, de acordo com a nossa verdadeira natureza.
                Atualmente os trabalhos com o Pentáculo de Pérola se tornam cada vez mais necessários, em uma sociedade que perdeu a identidade, perdeu o poder de agir em prol do bem comum, se transformar com o PP é transformar a realidade, parte de um verdeiro trabalho mágico. Assim como o PF, o PP pode ser trabalhado de duas maneiras básicas, seguindo o círculo ou ligando uma ponta a outra. Assimilar o conceito individualmente é importante, refletir e trabalhar com eles faz parte do processo mas a grande sacada está em integrar o Pentagrama de Pérola como um todo em sua prática diária, é conseguir identificar a sua força como um todo, no ambiente profissional, familiar e entre os amigos, é reconhecer em si o potêncial para transformar o ambiente ao redor, ser agente ativo da realidade e investir num futuro em que prevaleça o bem-comum, é romper com as correntes que a sociedade moderna coloca em cada um de nós e acreditar num futuro melhor, é sim se envolver em política mas não necessáriamente ser partidário, é estar atento aos problemas de sua cidade, estado, país, mundo, é ser voluntário e prestativo e muito mais, é despertar o poder que existe em você, o poder fazer diferente.

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